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Educação: Joana d’Arc de Paula, a tia Jô, reúne sua experiência de mais de 40 anos de trabalho com crianças em livro destinado a pais e educadores
Natan Dias
Muito antes de ser “descoberta” pela editora Trilha Educacional, era ela própria quem produzia os livros. Recortava, colava, costurava, fazia tudo para ajudar na educação das crianças, geralmente bebês de até três anos. Em 1997, com a ajuda da mídia, a procura por suas obras aumentou, embora a carreira da educadora já tivesse começado muito antes. Um anúncio publicado há mais de 30 anos no jornal Diário do Povo foi o que a levou até a Escola Infantil Pica-Pau. Foi marcada a entrevista e, um dia e meio depois, lá estava ela, trabalhando como professora. O livro traz, em 36 capítulos, parte da experiência adquirida por ela ao longo de décadas. São vários programas educacionais que podem ajudar a identificar dificuldades em crianças de idade pré-escolar e a estimular o desenvolvimento. A intenção, segundo a autora, é que a obra sirva como manual para observar e lidar com os problemas desde cedo, por meio da música, da dança, do manuseio e de atividades lúdicas. Metrópole - Como surgiu a Tia Jô? Joana d’Arc de Paula - Tia Jô veio da convivência com as crianças desde que sou professora. Na pré-escola, todo mundo é tia. Não é tão simples assim ser uma. Algumas correntes acham que “tia” não é bom, mas eu gosto. Há quem acredite que existe uma proximidade familiar. Não vejo assim. A aproximação da educadora com a criança na pré-escola tem que ser lúdica. A criança não é sua parente e essa distância deve ser preservada. Se o educador trata a criança como parte da família, pode estragar a relação. A respeitabilidade vem no convívio familiar ou escolar. Sabendo como lidar com a palavrinha “tia”, não haverá problema. Há quanto tempo a senhora trabalha com educação? São 41 anos, com algumas paradinhas porque adoeci e por outras coisas importantes na minha vida. Desde o início a senhora quis ser professora ou pensava fazer outra coisa antes de se dedicar à escolinha? Tenho certeza de que sempre fui tia. Pelas minhas passagens, pela minha vida. Eu tinha muita facilidade para conversar com as crianças, de me acercar, de brincar com elas. Mas a escola foi a meta realmente, assim como vivenciar o trabalho, ver os adultos com as crianças. Para mim, foi muito fácil. Sentia-me em casa. As instituições, muitas delas, não permitem que os profissionais se coloquem, porque têm um método determinado, que deve ser seguido de “A a Z”. A criança entra e já tem que seguir uma linha pedagógica rígida. Muitos diretores ou coordenadores de escola não permitem o acesso do professor à família daquela criança por “ene” razões. A coordenação à frente do mestre é muito pesada. Quem fica com a criança é o educador. É ele quem deve conversar com o pai, não a escola. Acredito que a direção pode estar junto, mas teria que deixar o educador se manifestar. Muitas vezes, a criança não gosta da escola, mas aprecia quem cuida dela. Qual é a proposta do livro Educar com Arte? O livro sugere coisas para o educador trabalhar. Mas também peço que ele crie, que demonstre suas ideias diante do que estou evidenciando, pois é uma metodologia prática. Eu seria por demais corajosa para dizer “faça assim”. O que posso afirmar é: “pode fazer, que dá certo”. O método pode ser usado por fonoaudiólogos, fisioterapeutas, terapeutas, clínicos. Cada profissional vai se posicionar de acordo com a sua ideia de trabalho diante de exercícios sugeridos, inclusive com artesanato. O importante é que o educador trate a criança com muita arte, mas uma arte mais amorosa. As pessoas têm que ter uma ligação direta com a criança, pois o trabalho é para ela. A senhora trabalha com crianças de que idade? Até três anos de idade. Nos anos 60, a criança ia para a escola com três ou quatro anos. Agora, vai com quatro meses. Em vez de me preocupar com a criança mais velha, achei mais condizente com a minha própria expectativa de crescimento cuidar do bebê. Acredito que hoje o bebê precisa ir à escola, pois a vida dele é muito apurada em casa. Os pais trabalham e ele fica com a babá. Penso que a criança deve ter uma comunidade adequada à idade dela. Eu chamo de comunidade escolar. Em uma escola, cada turma é uma pequena comunidade. Todos ali têm as ordens que devem ser obedecidas e cada grupo tem um sentido dentro da escola, e todos os educadores têm que trabalhar de acordo com aquilo que é proposto. Respeito muito o educador. É uma profissão que exaure demais. Como são trabalhadas a obediência e as regras com uma criança de até três anos? Se o bebê está feliz, ele não chora. Com quatro meses, fica sempre deitado, olhando para cima. Não acho isso muito bom. Prefiro que o bebê seja assistido e cuidado de uma forma bem lenta, para mostrar a ele o que é o mundo escolar, em geral cheio de sons e barulho. Dou muita importância também para o olfato. Acho que a mãe tem que estar junto durante um período. Depois de uns 15 dias, a gente já começa a lhe mostrar a realidade da escola: ruídos, músicas, outras crianças, portas batendo, caminhadas para tomar sol... O bebê fica curioso, desenvolve-se e não vai querer voltar para o berço. Quando acorda, quer ser retirado de lá. Depois, começa a se sentar apoiado. O mundo escolar é lindo, efusivo, alegre. No livro, peço ao educador que observe sempre. O nenê fala uma linguagem corporal maravilhosa. A mãe ou o funcionário do berçário sabe que quando ele chora alguma coisa aconteceu: a fralda molhou, está com fome ou com algum probleminha. E para que criança o livro pode ser aplicado? O livro pode ser trabalhado com todas as idades. Pode funcionar com adultos, em uma classe especial, como já foi testado, dentro da própria casa, porque realmente é uma ginástica. É movimento o tempo todo. Um dos trabalhos mais bonitos que considero é aquele feito com surdos. Quantos livros a senhora escreveu? Foram mais de 50, didáticos ou de literatura infantil, além de alguns de avaliações. Avaliar uma criança é muito importante, principalmente o bebê de até três anos. Estou muito feliz porque a minha editora, a Trilha, preocupa-se bastante com a criança. E realmente se interessou pelo meu trabalho. O site www.trilhaeducacional.com.br/educarcomarte também é muito importante de ser visto, porque acompanha o livro. Lá existem moldes em tamanho natural, bichinhos, personagens coloridos e outras coisas legais. Fonte: Revista Metrópole - Correio Popular
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